É incrível como um acontecimento anterior ao teu novo dia te faz acordar e sentir que lá fora está tudo mudado, tudo diferente. Que você anda diferente, move a cabeça diferente, mexe nos cabelos de um jeito diferente. E parece que o dia nasceu só para você, que o sol se pôs só para te observar. E, por mera ilusão, parece que é preciso que algo aconteça antes com você para que notes que um dia nasce diferente após o outro, que todos os dias, mesmo com praxes da vida, não são iguais nunca. E um sol se põe diferente do outro, e é preciso, às vezes, estar sozinho com nossos pensamentos para que isso seja notado. E o melhor: sentido.
Foi preciso que alguém pusesse a subtrair-me de meu canto para dar continuidade ao dia estranho, porém bonito que eu estava sendo banhada.
E foi uma retirada sem precisão, sem estranhamento, sem pés atrás para impugnar.
Quando o vi, de supetão o abracei. O abraço que guarneci um dia inteiro para um único momento. Eis o momento. Você sentiu meu calor e comentou sobre o mesmo, seguindo de uma pergunta de estado emocional. Eu disse que sim, bastante feliz. E senti o cheiro da tua pele pela primeira vez.
Disse que minha pele cheira a uma dita fruta, e daí não largou mais minha mão.
Como eu misturei cores para você, ah! E todas são só suas agora.
Eu misturava cores. Pintava. Sentia uma brisa na nuca. E me distraía, desviando, de lampejo, um ou outro olhar para você. Só meus cantos dos olhos sabiam o que era vê-lo fitar o mar, em hipnose, e "fotografar" sua visão em rabiscos no caderno.
Lembro de você de frente para o mar, para o sol, e para mim. Elevado, vislumbrando a força do vento contra a onda. Ora sim, ora outra me seguias com o olhar. Eu parei e respondi o teu. Foram instantes assim, vendo as árvores detrás de mim refletindo-se nos teus grandes globos castanhos. Eu poderia desenhar como engoliste as àrvores com teus olhos.
As frases curtas voam. O abrir de sorrisos leves se faz, com cada um com a sua ocupação.
Entrego-te o meu presente, me retornas uma rosa de papel. Faço-te carinhos, te desenho focinho e bigodes.
Eu sinto a tua pele na minha, eu descubro o teu tato. Provo o canto da tua boca. Ah! Que garoto terra.
Parece um Chaplin com aquela sombrinha e aquele andar peculiar. Canta o teu encanto. Canta mil canções. Uma ode. Ergue a voz com tanta segurança e me dá uma gotinha do Fernando Pessoa que há em meio a teu caderno e lápis de colorir.
Eu mexo no teu cabelo, beijo a tua nuca e passo a conhecer mais o teu rosto, tateando teus lábios, sobrancelha, olhos, queixo, nariz. Vejo o céu deitada em teu colo, sentindo o passear da tua mão sobre meus cabelos. Silêncio. Queixo. Nariz. Céu. Dou-te uma flor, que acaba por ficar bela entre teus curtos cabelos. Suor.
Fitar-te. A vista. A atenção. O pensamento.
Beijo-te. Acario-o. Acarinho-te. Toco de leve. Gestos felinos.
Mordo os lábios. É um abraço gostoso o qual me retornas. Promete me dedicar uma canção no violão. Porém, resultado infeliz. Mas eu aguardo esta canção em dedicatória para aquela que você chama de a Personificação do Imaginário.
E são tempos e tempos sentados alí, vendo luzes rápidas com rodas na rua, vendo carnes bípedes a se movimentar, e vendo aqueles dois infelizes animais.
Levantou o sol. Quebrou o mar. Caiu a chuva. E agora o que nos resta de hoje é este céu com quatro estrelas, nos dizendo tchau.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
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